Nossa fé foi manter o alto astral,
confiar na ancestralidade,
na sabedoria da natureza,
no potencial da fisiologia feminina.
E é claro, acreditar no poder da ocitocina e outros hormônios,
com gosto doce das tâmaras carnudas na boca.

Vocalizar aquele AAAAAAAAaaaaaaaaaaa que vem do ventre,
entrar em contato com a dor e se lançar para o imprevisível,
fecundar, adentrar, atravessar, explodir,
morrer, nascer, criar e amar sem medo de ser feliz.
A cada forte contração que passava,
a alegria em forma de alivio e esperança
vinha anunciar que mais perto nossa filha estava de nós.

E o que dizer sobre a partolândia?!!!!
o rock n roll aquoso mais alucinante da vida,
realmente só sei que estava lá…

Completamos 41 semanas, aguardávamos ansiosos por esse dia das contrações que começaram lá pelas 5hs da manhã do dia 18 de dezembro. Preparamos o ritual, cortamos os cabelos, caminhamos na rua, bebemos uma água de coco na frutaria, tudo isso entre uma contração e outra. Havia flores pela casa que minha irmã trouxe, o clima era de festa.

Esse registro também me ajudou a recordar que essa travessia não foi só rosas, altas manobras corporais, espirituais e medos mentais foram enfrentados.

Sobre detalhes mais técnicos, o que me lembro é que quando minha doula chegou, perto das meia noite já estava doendo para valer, sentamos na bola e ela começou a massagear meu quadril com aquele santo óleo de arnica. Antes delas chegarem estava tremendo de dor e a Laura me ajudou a relaxar e soltar as articulações pélvicas, com massagem e apoio moral.
A coisa foi progredindo e chamamos a nossa primeira parteira Letícia ela me mostrou como evocar aquela Ahhhhh que vem lá de dentro.
Prepararam a banheira no quarto, junto ao Angelo e Jade que estavam lá para ajudar em tudo o que fosse preciso.
A lembrança que tenho desse momento, a sensação gostosa que foi entrar na água morna foi como mergulhar na travessia. Nessa hora ficamos naquele estado meio mais pra lá do que pra cá. A Isa que filmou o parto também super ajudou nas massagens, me senti muito bem cuidada e amparada por todas e todos.
Os toques para medir a dilatação era mínimos e super respeitosos, a Lê não dizia quanto estava para não ficar ansiosa pois primeiro parto costuma sempre demorar bastante. Lá pelas tantas da madrugada, quando a Ana Cris chegou foi como se entrasse um anjo de luz no quarto. Ela veio direto de viagem para o parto, descansou um pouco no colchão do quarto ao lado, as parteiras se revezavam.

Já era quase dia…Entre uma pausa de contração eu sorria, quando ela vinha evocava todas as vogais do jeito que o corpo pedia. Quis encontrar a dança, a fluidez dos movimentos aquosos e pedi para o Angelo soprar o clarinete para chamar nossa filha... Estava muito feliz, ela estava chegando, finalmente iríamos nos conhecer!

Estava aconchegante na banheira, amanheceu, fiquei meio mole, relaxada então foi melhor sair, caminhar para dar uma despertada no corpo.
A Ana Cris fez umas 2 manobras pois estava com o colo um pouco inchado por ter feito força antes do tempo. Acho que foi isso. Vomitei um restinho da canja que jantamos, (o Angelo cozinhou em homenagem a tradição das antigas parteiras). Era a única coisa que tinha comido porque o lance é tão intenso que até eu que sou comilona não quis nem o sorvete que as meninas me levaram na boca e essa é uma das partes boas do trabalho de parto domiciliar. a gestante pode comer se quiser!
Então pediram para eu descansar, eu já estava ansiosa para terminar logo, afinal já completavam 24 horas de contrações. Olhei para minha equipe e todas estavam super tranquilas. E teve um momento que nos deixaram sozinhos no banheiro para dar uma ativada na ocitocina, aquele tal hormónio do amor.. Ficamos tensos, eu e o Angelo nos olhando e pensando aí aí, será?!!! (Não queríamos ter que ir para o hospital de jeito nenhum!)

Então eu levantei e pedi a “banquetinha” e pensei alto, vou parir agora!
Senti aquela dor de vontade de fazer coco só que é a sensação do bebê passando, abrindo os ossos, tudo como tinha que ser…

Pensei na minha avó Odete que pariu 13 filhos em casa, pensei no astros de luz que me dão força e proteção, pensei nas indias do Xingu, fiz toda a força que pude e a Ayla saiu como um facho que luz. O Angelo foi o goleiro como ele mesmo conta, foi ligeiro!

Ayla chegou às 8h53 da manhã, sagitáriana!!!! Após o parto tivemos nossa hora dourada com nossa filhota a sós. Chegamos então na etapa final do parto: a dequitação placentária, depois que a placenta saiu e parou de pulsar, o novo papai cortou o cordão umbilical com o auxílio da nossa amada parteira. A Ana Cris nos mostrou como era a casinha da Ayla no ventre e depois fez o clássico carimbo de placenta, pesou e enrolou no charutinho. Depois disso tudo capotamos com nossa neném na cama. Todos ainda estavam na casa, minha familia e nossa equipe, comendo e festejando.

Optamos em só avisar nossos pais depois que deu tudo certo pois não queríamos que eles ficassem mais preocupados, nervosos ou com medo. Minha mãe respeitou muito a minha escolha por parto domiciliar, mas depois de tentar convence-la ela me disse:
-Mas filha, pode fazer com a equipe humanizada na maternidade?
Olhando nos olhos dela, quase dei para atrás. Então, carinhosamente disse a ela que era fundamental sentir seu apoio para me sentir segura. Depois que meus pais chegaram em casa com pães de queijo para o café da manha, conheceram a nossa equipe, tiramos foto. Tenho certeza que ela entendeu porque escolhi ter sua primeira neta em casa e se encantou com o processo todo.

Aprendi a confiar na minha força, aprendi que essencialmente quem faz o parto acontecer é a mulher e seu bebê. E ter junto uma equipe que nos deu segurança, respeitando todo o tempo que fosse preciso para que nossa filha viesse ao mundo foi a melhor escolha possível!

Durante a gestação foi fundamental aprofundar nas questões do movimento do Parto Humanizado.
Entender que optar por parto natural e amamentação livre demanda é um ato político no Brasil e todas as questões que envolvem essa polêmica, inclusive pós parto, puerpério e etc...
É muito importante desmitificar mitos e lendas. Estudar, buscar informação sobre o assunto em rodas e grupos de apoios.
Com mais ou menos 7 meses decidimos receber nossa filha no aconchego do nosso lar livre de qualquer tipo de intervenção hospitalar. Foi muito gostoso participar das consultas coletivas do Gama no pré natal, onde fizemos amizades com outras famílias que até hoje trocamos experiências sobre maternidade. Um vínculo muito saudável de troca e apoio mútuo.

Se posso dar um conselho para as grávidas, mães de primeira viagem: não espere por ninguém para ir atrás de informações e em busca dos seus sonhos. Fui em todas as rodas de gestantes sozinha, via alguns casais juntos e pais super interessados, isso às vezes me pegava, mas não deixava de ir, afinal é a mulher que precisa tomar as rédeas da situação, é seu corpo, suas emoções, seus hormônios que estão em constante transformação. Não espere do seu parceiro, por mais sensível que ele possa ser, adentrar a essa experiência como vc tem a oportunidade de. Pois realmente nossos corpos são diferentes, e eles vão chegando junto, entendendo, assimilando as transformações físicas e psíquicas. Assim como para nós mulheres pode demorar para cair a ficha.
Por isso, aproveite os momentos de solitude, para cultivar o amor próprio em pequenos rituais íntimos de auto cuidado nesse processo é um ótimo jeito de se conhecer melhor. Acolher as emoções negativas, o medo a insegurança, se olhar pelada no espelho do banheiro e ir percebendo a barriga crescendo pouco a pouco. Aceitar a natureza do seu corpo, saudável, expandindo, se admirar. Dançar e cantar no chuveiro, chorar e fazer amor.

Acho importante também, buscar apoio de outras mulheres mães, que entendam e que acolham as suas necessidades, principalmente no pós parto. Também encontrar com os amigos que estão distante desse universo e para conversar sobre outros temas diversos pq depois que vc entra nesse mundo é uma enxurrada de novas informações e vocabulários desconhecidos que no começo até assusta. É impressionante como não temos noção nenhuma desse universo feminino complexo que nos chega quando engravidamos.

É de espantar como mesmo hoje em dia, questões feministas de igualdade caem, os tabus ressurgem e nos deparamos com nossos contos de fadas idealizados ladeira abaixo na maternidade.
Vendo as fotos do nosso filme vocês podem imaginar, ah que casal mais conectado, feitos um para o outro... Pois bem, foi paixão, muita discussão para nos olharmos a fundo e crescermos juntos. E os 9 meses passam rápido, é tanto exame, consultas, decisões financeiras, projeções futuristas, que optamos em nem pensar em casamento e nem na tal lista de enxoval do bb.

E foi nas performances que fizemos juntos que tivemos momentos de profunda troca e conexão. Foi muitas vezes em cena que percebia o desequilíbrio do meu corpo mudando o eixo. Que dava branco total e esquecia tudo que ensaiamos, ou no início quando ter ânimo para ensaiar era um sacrifício!Foi muitas vezes em cena Que respirávamos juntos, que sentia a falta de ar de ambos, eu por dançar e desenhar de barriga e o Angelo por soprar e dançar ao mesmo tempo.
Foram 4 ou 5 apresentações que fizemos no total, (no site tem um arquivo do Duo onde podem ver algumas imagens das nossas performances de barriga, desde o "#SaxSex" nosso duo já era um trio!.)

Essa é um um pouco do início da nossa história, nossa filha veio como um foguete, nos uniu e nos da animo, entre choros e gargalhadas para continuar em busca dos nossos sonhos. Um passo de cada vez, sempre adiante.
Mais uma vez agradeço toda a nossa familía e maravilhosa equipe por estarem ao nosso lado nesse dia.

São Paulo, 19 de dezembro de 2017

Yasmim Flores, mãe da Ayla.

Da esquerda para direita: As parteiras Ana Cristina Duarte e Letícia Ventura, Laura Ayres nossa doula,Isadora Carneiro fotógrafa- filmaker e minha irmã Jade foram nossas companheiras de jornada. <3

Angelo e Laura são amigos de infância!

Quem se interessar em assistir o filme que fizemos para nossa filha, me escreva que envio o link.
Esse relato tem o intuito de incentivar outras mulheres e famílias que buscam um parto humanizado e domiciliar.
Quando estava grávida também lí muitos relatos e foi através de outras histórias que fui tecendo minhas próprias escolhas.
Na real nunca sabemos como o bebê vai nascer, parir é se lançar no imprevisível!
Boa hora!!!